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Kali-yuga
O kali yuga é a Idade do Ferro, segundo o Linga Purana. O Linga Purana é um dos dezoito Puranas, que são uma coleção de textos sagrados shivaístas. O texto existente é dividido em duas partes, compreendendo 108 e 55 capítulos respectivamente. Essas partes contêm a descrição quanto à origem do universo, a origem do linga e a emergência de Brahma e Vishnu. Lendo "Shiva e Dioniso" de Alain Daniélou, encontrei partes do Linga Purana que tratam da kali yuga. Fuçando na Internet, achei o mesmo texto, que reproduzi logo abaixo.
A descrição do mundo atual é precisa.
Escrito por Fabricio Franco às 22h59
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A Era de Kali-yuga segundo o Linga Purana

A evolução do mundo é submetida a ciclos.Em varias ocasiões a humanidade e o conjunto das espécies vegetais e animais conheceram sua infância, sua idade áurea,seu declínio e sua destruição.Cada um desses ciclos é dividido em quatro períodos denominados yugas.
O primeiro período é a idade do Ouro ou idade da Verdade ou Satya-yuga, durante a qual o homem é sábio, busca a auto realização , esta em harmonia com a natureza e o cosmo, busca pelo Divino. O segundo período é a Idade da Prata, o treta –yuga, idade dos três fogos ou dos ritos, O terceiro é o do Bronze, ou Dwapara- yuga, ou idade da indecisão, e o ultimo período e a Era de ferro ou Kali-yuga, ou idade dos conflitos.
Neste ultimo período, no qual nos encontramos a humanidade trabalha para sua própria destruição. A palavra kali significa conflito , querela, e não tem nada a ver com a deusa Kali ou a potencia do tempo , da morte.
Durante a Kali yuga , a desordem no equilíbrio natural , na sociedade e seus valores fundamentais vai aumentando num ritmo cada vez mais acelerado,que anuncia o fim do ciclo e a destruição quase que total da humanidade (pralaya) ,fim que não estaria muito longe.
A supremacia do homem sobre o mundo terrestre e a destruição gradual por ele das outras espécies vivas provocam a vingança ou castigo de Shiva, manifestada pela loucura que inspira áqueles que se opõem a ordem natural da vida, loucura evidente no comportamento da humanidade moderna, formada por massas inconscientes conduzidas por dirigentes irresponsaveis e maléficos.
Mergulhados nos recônditos da ignorância e pensando- Somos pessoas sabias e instruídas, esses loucos, expostos a mil males erram em aventuras como cegos conduzindo por um cego-( Mundaka Upanishad-I cap2.8).
Nesta Era de Kali, os homens da raça de ferro , não cessarão nem durante o dia de sofrer as fadigas e miserias, nem durante a noite de serem consumidos pelas duras angustias que lhes enviarão os deuses. O pai então não parecera com o filho, nem o filho com o pai, o hospede já não será querido por seu anfitrião, o amigo pelo amigo, o irmão pelo irmão,como era antes.Assim que ficarem velhos os pais receberão só desprezo dos filhos, esses se expressarão com palavras rudes a seus pais,os filhos sequer experimentarão o temor dos céus, aos velhos que o alimentarão recusarão alimentos.
Nenhum valor terá a promessa, o justo, o bem, será ao artesão de crimes, ao homem todo desmedido que dedicaram seus respeitos,, o único direito será a forca, já não haverá consciência. O covarde atacara o bravo com palavras tortuosas, que apoiara com um falsa promessa. Aos passos de todos os miseráveis humanos estarão ligadas a inveja, a linguagem amarga, a face rancorosa, que se comprazem com o mal. No Linga Purana descreve os homens de Kali yuga como atormentados pela inveja, irritáveis, sectários, indiferentes ás conseguencias de seus atos. São ameaçados pela doença, pela fome, pelo medo e terríveis calamidades naturais. Seus desejos são mal orientados, seu saber utilizados para fins maléficos, são desonestos, muitos perecerão. A casta dos nobres e dos agricultores declinam, a classe operaria durante a era de Kali pretende governar e dividir com os letrados o saber, as refericoes, as cadeiras e as camas. Os chefes de estado são em sua maioria de origem inferior, são ditadores e tiranos.
Matam os fetos e os heróis, os trabalhadores querem assumir papeis intelectuais, os intelectuais o papel dos trabalhadores,, os ladrões tornam se reis e os reis ladroes, as mulheres virtuosa são raras, a promiscuidade propaga se , a estabilidade e o equilíbrio das castas e das idades desaparecem, a terra não produz quase nada em certos lugares e muito em outros, os poderosos se apropriam- se dos bens públicos e deixam de proteger o povo,, cientistas de origem inferior serão honrados como brâmanes( sábios ) e entregam a pessoas que não são dignas os segredos perigosos das ciências, os mestres avilvam se vendendo o saber, muitos refugiam se numa vida errante, por volta do fim da kali yuga o numero de mulheres aumenta e dos homens diminui.
Na Kali yuga os animais se tornam violentos, o numero de vacas diminui muito, os homens de bem retiram- se da vida publica, haverá comida já cozida sendo vendida em praça publica, os sacramentos e a religião também estará a venda .
A chuva é errática, os comerciantes desonestos, as pessoas que mendigam ou procuram por empregos são cada vez mais numerosos, não haverá aquele que não empregue uma linguagem grosseira, que mantenha sua palavra, que não seja invejoso e fofoqueiro, pessoas sem moralidade iram pregar virtudes a outras, a censura reinara, associações criminosas forma-se nas cidades e nos paises, faltara água assim como furtas e vegetais. Os homens perderão os sentidos de valores, sofrerão de dores, usaram cabelos revoltos, no decorrer de Kali yuga as pessoas nascerão mas terão esperanças de vida que só será de dezesseis anos, as pessoas terão invejas das roupas dos outros, os ladrões roubarão os ladrões, muitos se tornarão letárgicos e inativos, as doenças contagiosas, os ratos e as serpentes atormentarão os homens, homens sofrendo de fome e medo encontrar se ao nas cercanias e portões de varias cidades.
Ninguém vivera mais a duração normal da vida, que é de oitenta anos, os ritos perecerão nas mãos de homens sem virtudes, pessoas praticando rituais transviados espalhar –se ao por toda a parte, pessoas não- qualificadas estudarão os textos sagrados e torna se ao supostos peritos, os homens matar se ao uns aos outros e matarão também as crianças, as mulheres e as vacas, os sábios serão condenados á morte.
Entretanto alguns poderão alcançar a perfeição em muito pouco tempo, excelentes devotos, com sinceridade continuarão a praticar a fé e os caminhos da devoção,( Linga purana-II-cap-39-42-49).
A Kali yuga é num certo sentido um período previlegiado, os primeiros homens ( satya yuga) ainda próximos do divino eram sábios, mas os últimos homens os de Kali yuga, ao se aproximarem da morte, aproximam-se tambem do principio em que tudo volta ao seu fim. No meio das decadência moral, das injustiças, das guerras, dos conflitos sociais que caracterizam a era de Kali, o contato com o divino pela via descendente é cada vez mais fácil.
Os méritos adquiridos em um ano de Treta yuga podem ser obtidos em um mês de Dwapara yuga, e em um dia na Kali yuga ( Rudra samhita).
Escrito por Fabricio Franco às 22h38
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de volta?
Ok, dois anos se passaram e deu vontade de voltar pra isso aqui. O motivo? Deve ser porque o "noite de temporal" finalmente vai sair na coletânea da AIC ou porque tá dando coceira de escrever de novo. Pra quem nunca esteve aqui, seguem rascunhos velhos abaixo e, acima, coisas novas que eu espero que sejam melhores.
Escrito por Fabricio Franco às 11h50
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dama, peão e bispo
A camisa de Odair está molhada de suor. E a culpa não é do terno barato. Já tem gente chegando para o próximo casamento, comenta. Ela vem, encoraja o irmão. A igreja está quase cheia. O tapete vermelho separa os convidados. Do lado da noiva dá para ouvir um certo burburinho e alguns risos abafados. No outro, o silêncio predomina. De cima do altar a quase cunhada tenta segurar o sorriso enquanto busca o olhar da mãe. A quase sogra não esconde mais os dentes, que já rivalizam a atenção com as jóias do pescoço. Deus ouviu minhas preces e a Raquel meus conselhos, diz ao marido. E o dinheiro que gastei com a festa? ele completa. Na primeira fileira, o irmão caçula do noivo ampara o pai: nestas horas é até bom que a mãe não esteja mais aqui. Preto nasceu pra apanhar, filho. O filho não tem tempo de resposta. Um padrinho que fumava lá fora surge tropeçando nos fios da gravação: a Raquel. Chegou. Eu sabia. Chegou. Ele diz aos trancos enquanto recupera seu posto no altar. Então a coisa inverte: um lado fica eufórico e o outro passa a desacreditar. A quase sogra e a quase cunhada viram sogra e cunhada. E o caçula guarda o discurso para outra ocasião: os olhos do pai já têm lágrimas demais. Enquanto as portas são abertas, a pequena orquestra inicia a Marcha Nupcial. A igreja se levanta, o padre reaparece e Odair se recompõe: agora é ele quem exibe os dentes para a platéia. Mas não Raquel. Que entra pela igreja com o rosto inexpressivo. Sua maquiagem revela sinais de retoque enquanto avança a passos curtos, duros. É o nervosismo, diz alguém que torce. Ela vai desistir, diz outro que condena. Raquel é segura pelo pai, que a beija ou diz algo em seu ouvido. Ela não se altera. Retoma seu passo acompanhada e, quando é entregue ao noivo, tenta retribuir o sorriso. Quando o rito tem início só o padre fala: em nome do Pai e do Filho. Leitura do Livro. Leitura da Epístola. Palavra do Senhor. Evangelho. Palavra da Salvação. Graças a Deus. O noivo toma as alianças. O padre retoma: é de livre e espontânea vontade? É por toda a vida? Vai receber com amor os filhos? O casal estende as mãos. Uma é trêmula. Na alegria? Na saúde? Todos os dias da sua vida? Sim. Odair diz. Na tristeza? Na doença? Todos os dias da sua vida? Raquel olha para Odair. Responde.
Escrito por Fabricio Franco às 23h27
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o quarto planeta
Os marcianos são muito mais avançados. Só assim pra conseguir me pegar e trazer até aqui. Onde outros como eu são sedados e guardados em celas quadradas. Cobaias de experiências. Aposto. O clima é seco mas há oxigênio. Eu sabia. Eu sempre soube. Eles que fingiam não acreditar em mim. Aqueles homens de ciência. Que se diziam de ciência. Com certeza fizeram um pacto. Uma troca de favores: “quando a Terra for invadida, vocês serão poupados”. Idiotas. Onde já se viu um e.t. com palavra? Eu devia ter sido mais cauteloso. Matar o infiltrado em pleno laboratório foi um erro. Achei que o Max fosse ajudar. Ele disse que também desconfiava. Só que não me defendeu quando me encontraram. Covarde. Ficou chorando, sem ter coragem de me encarar. Foi a maldita tecnologia deles. Algum detector de DNA indicou o aeroporto. Só o Max sabia. Mas traidor ele não é. Já está na hora do recolhimento. Pela grade dá pra ver alguns dos nossos ainda no pátio. Vestindo estas ridículas roupas que eles nos dão. Quase ninguém gosta de falar sobre o assunto. Outros não entendem nada. A lobotomia marciana é eficiente: nem deixa marcas. Só não sei porque eles não se revelam. Têm medo de uma rebelião? É isso. Quando me recuperar das lesões eu tento de novo. E não adianta ficar aparando minhas unhas. A próxima máscara eu arranco com os dentes.
Escrito por Fabricio Franco às 14h08
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sobre vidros filmados
Da ponte sobre a 23 de Maio, Eliseu olha para o rio de carros que segue para a zona sul. Procurando novamente pelo vislumbre de uma certa passageira através de pára-brisas vagarosos.
A última vez foi há uns dez anos. Quando ficava ali, todos os dias úteis, a partir das 18h10. Era o tempo que levava para bater pontualmente o cartão e descer pela escada os três andares do pequeno edifício vizinho à ponte, construído pelo pai em 1977. Ano em que o escritório de contabilidade ainda prosperava. Tanto que dava para o Seu Elias pensar em planos de casamento e em nomes de filhos que começassem com “E”. Tempos pragmáticos que não deixavam a mente divagar sobre a possibilidade de nascer algum sucessor poeta.
Que se colocaria, vinte anos depois, sob a ruína dos negócios herdados a divagar sobre um amor platônico: a Iara da faculdade inconclusa de letras que saía do trabalho e escoava pelo trânsito sentido zona sul. A musa que se revelava por baixo da ponte para o breve e redentor deleite de um contador romântico sem coragem de reivindicar seu coração, entregue de maneira irregular a outros proprietários.
Os tempos atuais são ainda mais pragmáticos. Os pára-brisas estão diferentes. Escurecidos pelos medos, não revelam mais os clarões de seus donos. Iara pode passar incógnita pelo olhar clamoroso de Eliseu. Que não consegue mais ver motivo para não saltar.
Escrito por Fabricio Franco às 22h58
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aos pedaços (03:05AM)
A reprodução da Guernica, no meio da parede da sala, é a única peça inteira. De lá, o “olho que tudo vê” observa outro cenário de destruição.
Logo adiante, a mesa vazia: palco de uma peça não encenada. Ao seu redor, pelo chão, trechos do jantar dão pistas sobre os atos da tragédia. Pedaços de frango recheado misturam-se a cacos de vidro, fragmentos de porcelana e talheres de prata. Grãos de arroz e passas empapam a toalha bordada a mão.
Perto dali está o sofá, que fica de frente para o celular partido ao meio, cujo visor ainda teima em sinalizar a última ligação realizada.
Na parede do lado oposto há o prego solitário, que já sustentou por muito tempo o relógio, que também jaz agora no chão, anunciando a hora da sua partida: duas e dez da manhã.
Bem em frente, gotas ainda escorrem pelo buffet até o piso. Sua nascente vem do laptop em curto-circuito, inundado recentemente pela água do vaso que, até bem pouco tempo atrás, alimentava rosas e esperanças. Essas, flutuam despedaçadas pela poça formada no piso, que vai até a porta.
Que acaba de ser aberta depois que ele, trôpego e tomando cuidado para não fazer barulho, conseguiu girar a maçaneta para entrar no apartamento.
Escrito por Fabricio Franco às 18h48
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em pedaços (02:10AM)
Rói a unha. Olha o relógio do vídeo. Abandona o final do Supercine.
Vai pra sala.
Liga para o celular desligado. Deixa o décimo recado. Joga o telefone no sofá. Senta em cima. Esfrega os pés no tapete.
Olha o relógio da parede. Ouve um barulho. Corre de novo para a porta. Espera um milagre do olho mágico. Vê o vizinho tropeçar na escada.
Escora-se na mesa.
Vira a metade final da garrafa de vinho. Olha o relógio. Voa para o celular do sofá. Despeja todos os palavrões do mundo na caixa postal. Atinje a reprodução da Guernica com o aparelho.
Avança pra mesa.
Bate o prato. Trinca o copo. Dilacera o frango com o cabo da colher da sobremesa. Arranca a toalha com tudo.
Olha o relógio. Quebra o relógio no chão. Esmurra o buffet.
Parte os caules. Debulha as rosas. Derrama toda a água do vaso em cima do laptop ligado.
Desiste do olho mágico.
Arrasta-se ao quarto.
Escancara o armário. Consegue rasgar três camisas. Perde uma unha.
Pára de enxugar as lágrimas.
Desaba sobre a cama incompleta.
Escrito por Fabricio Franco às 18h47
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arco-íris
A cor da íris Concentra vermelho, laranja, amarelo. Mistura verde. Dilui azul, índigo, violeta. Acorda Íris, Revela tons do céu submerso, Nuanças de estrelas do mar.
Escrito por Fabricio Franco às 09h28
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as coisas são
Tem gente que acredita que impressora quebrada tem energia ruim. Um escritor contemporâneo disse que isso é ridículo, Em pleno século XX.
Tem pessoas que conversam com as câmeras quando vão filmar. Dão até bom dia. Uma delas era o Kieslowski. Em pleno século XX.
Escrito por Fabricio Franco às 13h22
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noite de temporal

Escrito por Fabricio Franco às 19h41
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noite de temporal - I de III
Sinceramente, não sei como vim parar neste lugar. Só sei que o tempo está desabando a mais de uma hora e os únicos caminhos que não estavam alagados me empurraram pra cá. Para o centro da cidade. Na rua da festa da Laura. A quarto-anista do curso de Psicologia que me convidou para o seu aniversário de 21 anos. Juro que eu não queria estar aqui. Principalmente sabendo que do outro lado da cidade, a delícia da Danielle está dando uma puta festa na mansão dos pais. Inocentes. Viajaram pra Miami e deixaram a filha sozinha. Sem saber que ela pegou o ex-futuro genro com a melhor amiga no banheiro da faculdade. E sem sequer imaginar que ela está doida para se vingar da traição dando para o cara pela qual a amiga é apaixonada. Ou seja, eu. O babaca aqui, preso dentro do carro, na frente da festa da Laura “quero-ser-capa-da-vogue-francesa” Marie. Não que ela seja feia. Pelo contrário. Tem um dos rostos mais lindos que já vi. Cabelos lisos bem pretos e curtos. Olhos negros que são tão brilhantes quanto suas conversas. Um estilo próprio para escolher e combinar roupas. E um jeito tão cool de tragar um cigarro que muita gente no campus tenta imitar. O problema é a carne. Ou melhor, a falta. Se eu fosse como os nerds da minha sala, com certeza estaria alimentando uma paixão platônica por ela (como toda a ala masculina-cinéfila-punheteira do curso de Cinema). Aqueles babacas fãs da Nouvelle Vague a vêem como uma espécie de musa inspiradora para os seus curtas-cabeça. Alguns até já tiveram coragem de chamá-la para atuar em uma daquelas bostas. E é lógico que ela topa. Desde que não tenha, ela diz, que tirar a roupa. Uma indireta que aqueles idiotas, lógico, não sacam. O problema dela é a falta de carne. Coisa que a tal da Dani, a mais gostosa do curso de Direito, tem de sobra. Uma loira que cultiva cada centímetro de seu corpo espetacular com um cuidado que chega a ser doentio. Tem gente que acredita nesta história de ideais, divas e cinema autoral. Mas eu faço Cinema pra dirigir comerciais e ganhar dinheiro. Quando passar dos 50 e estiver bem rico, posso pensar em mudar de idéia e fazer filmes lentos em preto-e-branco e até, quem sabe, ficar a fim de me casar com uma beleza “noir-cabeça” como a da Laura. Mas hoje, e durante os próximos 30 anos, eu só quero saber de uma coisa: encher o bolso para comer várias belezas do tipo “academia-peituda” como a Dani. Paro numa esquina sinistra. Há um boteco aberto em frente com gente jogando sinuca e olhando para o meu carro. Devem achar que estou atrás de pó. Foda-se! Fuço os bolsos à procura do flyer com o endereço da festa. Por quê será que ela insistiu tanto que eu viesse? Ela, que sempre me esnobou, de repente grudou em mim após assistir o meu seminário sobre expressionismo alemão. Aquela apresentação ficou do caralho. Pudera, eu precisava de um 9 para escapar de uma DP e depois de me matar de estudar acabei conseguindo um 10. E ainda por cima entortei a cabeça da menina. Dava pra ver na cara dela a surpresa. Depois desse dia, ela não largou mais do meu pé pra pegar referências de escritores, pintores, diretores. Provavelmente ela vai usar isso no TCC dela e está me bajulando só por causa disso. Eu não dou a mínima. Tudo nessa bosta de faculdade é movido por interesse mesmo. Se ela der pra mim hoje, ficamos quites. Encontro o flyer amassado no fundo do bolso do casaco. O bar chama Carmilla e fica a uma quadra dali. O lugar é uma porta numa parede de tijolos com um letreiro roxo em néon. Na frente, um cara de terno em baixo de um toldo faz a segurança. Apesar da região ser um antro de nóias e ladrões a sorte me sorri pela primeira vez na noite inteira, reservando uma vaga bem em frente. Por um momento, esqueço a gostosa de Alphaville e penso que esta noite pode até ficar divertida. Assim que desço do carro, sou abordado pelo leão-de-chácara que me interroga sobre o convite. De sopetão, minha mão com o flyer pára a poucos centímetros do seu nariz. Fico só na vontade de esfregar o papel na cara dele. Ele fica na dúvida se meu gesto foi uma provocação, mas prefere não amassar seu terno comprado a prazo na Colombo. Então ele só arranca e rasga o convite da minha mão e abre a porta da espelunca com a mesma boa vontade de um funcionário público. Um discreto sorriso de escárnio brota dos meus lábios enquanto entro. Mesmo que a minha noite seja uma merda, com certeza a dele já está sendo pior. Dentro do Carmilla a história é outra. De cara, sou atendido pela hostess. Um mulherão que lembra vagamente a Angelina Jolie e que parece levar a sério essa semelhança. Abrindo um carnudo sorriso de revista ela explica que a entrada com o flyer é 25 reais. Pergunto a ela qual é a diferença já que ninguém pode entrar sem convite. Então sua simpatia ensaiada vai embora. Ela recolhe o sorriso e me estende uma comanda. Olhando de fora, ninguém diz que o bar é tão grande. Um corredor estreito e mau iluminado vai revelando o lugar aos poucos. Primeiro surge um carpete vermelho, seguido por “Isolation” do Joy Division que sai das caixas de som e se torna mais alta a cada passo. Depois, uma sala enorme com sofás espalhados pelos cantos. Quase todos com pessoas ocupando e trafegando por entre eles. E que pessoas! Nada daquelas míopes de cabelo duro e daqueles gordinhos gays com cavanhaque da Psicologia. Por todos os lados, apenas gente interessante. Circulando, conversando, bebendo, fumando. A maioria parece ser um pouco mais velha que eu. São mais elegantes e esbanjam um tipo de atitude que chega a me intimidar. Nada que uma boa dose de whisky não possa nivelar. A travessia da sala até o bar é longa e arrastada. Por quê merda todo mundo resolveu me olhar? Deve ser normal aparecer gente nova por aqui de vez em quando. Ou não? Alguns disfarçam, outros cochicham. Alcanço o balcão e peço um Black Label puro. O garçom parece ser o único que não se importa comigo. Em um instante ele preenche meu copo e no outro eu já estou com ele nos meus lábios. A coragem desce rasgando junto com o whisky. Quando me volto para encarar a festa, alguém já está fazendo o mesmo comigo. A um palmo do meu nariz um decote vermelho sobre um par de peitos pálidos e roliços está me pedindo fogo. Quando levanto os olhos, uma loira de cabelos encaracolados e olhar incandescente tem um sorriso com um cigarro nos lábios vermelhos. Mau tenho tempo de revirar o casaco em busca do Zippo quando ela é puxada pela cintura por uma morena que cochicha algo em seu ouvido. A decotuda é arrastada para longe e tudo o que eu consigo pegar daquela conversa é algo do tipo “ele já tem dona”. Parece que a Laura já demarcou seu terreno e colocou uma capataz de prontidão para a sua encomenda chegar inteira. Tudo isso é tão estranho quanto excitante. Termino de virar o Black e peço mais uma dose para o garçom-robô. Agora eu faço questão de pagar pra ver onde esta história vai terminar.
Escrito por Fabricio Franco às 19h34
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noite de temporal - II
Quando estou começando a me acostumar com o clima, eis que por uma entrada que leva ainda mais para o fundo do bar, surge a minha anfitriã. Sua aparição faz com que todo o arrependimento e retração se dissipem em um segundo. Laura está mais linda do que nunca. Teve a coragem de repicar o channel preto e dar ainda mais personalidade ao seu rosto de traços acentuados. Por baixo de um casaco de couro marrom, propositalmente surrado, ela veste uma regata branca diabolicamente transparente. Que mais revela do que esconde seus pequenos seios, que dispensam o sutiã. Seu figurino é finalizado com uma saia preta e comprida e uma gravata desleixadamente amarrada no pescoço. O conjunto é muito capa da Vogue francesa, mas também é totalmente ela. Minha cara de bobo deve ter ficado parecida com as dos nerds da faculdade quando ficam babando pelo corredor. Ela deve ter percebido, pois se aproximou de mim com aquele seu típico sorriso de superioridade. “Que bom que você veio”, ela diz, “achei que você fosse me trocar pela festa do Direito”. Não digo a ela que não tive outra opção. Seria uma burrice para quem já comprou a idéia de deitar com ela dentro de algumas horas. Minto dizendo que não tive tempo de comprar nada pelo caminho, que a chuva não me deu muitas alternativas, blá, blá, blá. “Seu trouxa”, ela interrompe rindo e esnobando minha explicação furada, “vamos lá pra dentro. Eu reservei uma sala”. Desarmado, deixo ela pegar minha mão e me carregar para o fundo do bar. Um outro corredor, mais comprido e escuro leva a um monte de salas. Ela me arrasta por entre gente ainda mais estranha que continua a me olhar como se eu fosse de outro mundo. Devo ser mesmo, só que agora eu estou pouco me fodendo para essa afetação. Aqueles putos devem estar é com inveja. Afinal, estou com a mulher mais desejada daquele lugar, tanto pelos homens quanto pelas mulheres. No final do corredor chegamos a uma sala ampla, iluminada apenas por algumas velas. Há sofás, divãs e poltronas, além de uma mesa de centro sobre um tapete e muitas almofadas espalhadas. Quase todas com aqueles amigos esquisitos dela. Pessoas muito cool dão no saco. No canto há um cd player que distribui a música pelas caixa de som. Ali está tocando Bauhaus, só não sei que música. “A trilha desta noite foi eu que fiz. Minha inspiração foi aquela sua palestra sobre expressionismo. Espero que goste”. “Que bom que a minha apresentação ainda está te enganando”, respondo com um falso sarcasmo, que ela parece adorar, pois seu sorriso é sincero “você não imagina o quanto. Mas hoje é o último dia em que eu vou te encher por causa disso. Venha, vamos nos sentar. Quero que você conheça uns amigos”. Nos sentamos no tapete, em meio a umas pessoas que estavam conversando. Um cara bem grande e de barba escura, sentado numa poltrona, fala alguma coisa sobre poesia gótica. Todos prestam atenção àquele papo-cabeça. Um saco. Viro o último gole do whisky e pergunto a ela onde consigo bebida por ali. “Eu pego pra você” ela responde e se levanta rumo a uma porta que parece levar a outro ambiente. Fico ali no meio daquele povo que conversa apenas entre eles repercutindo a palestra do gordo. Quase do meu lado, a loira que me pediu fogo no bar finge que não me olha. A morena continua por perto, vigiando. A atmosfera é densa, quase sufocante. Não sei se por causa do whisky ou da sensação de estranhamento que me causam um certo torpor. “Você já tomou absinto?” pergunta Laura, me despertando ao voltar de repente. Para impressionar digo que já, mas é mentira. “Só que como esse, eu garanto que não” diz enquanto estende uma pequena taça fina com um líquido azulado. “Isso aqui é importado e caríssimo, bebe” ela diz naquele tom esnobe que só com ela não soa arrogante. A música muda para “Bela Lugosi is Dead”. Acho que deve ser a trilha sonora ideal para quem vai tomar absinto pela primeira vez. O gosto é divino. Tanto que acabo entornando a taça de uma vez. Depois disso a realidade é outra. Ela sorri ou ri da minha cara? Não sei mais. Tudo em volta fica fica mais claro e tenebroso. Novas cores, vozes, olhares e intenções se revelam. A sala vira um quadro de Toulouse-Lautrec, do qual eu também faço parte. A sensação de enjôo retorna com mais força. Noto que os olhos de Laura estão fixos em mim. Como os de uma gata, parecem esperar por algo. A impressão é que tudo está girando ao meu redor. Ela percebe que preciso sair dali rápido e me pega de novo pela mão. “Vem comigo para a outra sala”, ela diz. Eu me levanto com uma dificuldade que tento não demonstrar. As pessoas me dão passagem com toda a cortesia, como se aquilo fizesse parte de algum ritual em que todos ali estivessem envolvidos de alguma forma. Estou totalmente à mercê de Laura. E já começo a não ter certeza se isso é bom. Entramos numa sala pequena que é na verdade um quarto com uma cama e nada mais. Atordoado, despenco na cama enquanto ela deixa cair seu casaco e a saia. A camiseta, sua pele pálida descoberta e o branco dos seus olhos têm agora um brilho infernal por causa da luz negra do ambiente. Contemplo seu corpo longilíneo enquanto um tesão indescritível começa a me invadir junto com um torpor que me paralisa por completo. Tudo perde o foco. Parece que o veneno da viúva negra fez o efeito esperado. Ela se aproxima e deita sobre mim. Não consigo mover um só membro e isso me enche de pavor. Mas isso, somente até sua boca colar na minha e seu beijo me levar para algum universo paralelo do qual eu não sei como voltar.
Escrito por Fabricio Franco às 19h33
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noite de temporal - III
Aquela viagem parece durar horas de êxtase. Seus lábios percorrem demoradamente meu pescoço até encontrar a minha jugular. É ali que ela crava os dentes sobre a minha carne. Não há dor. Aquela bebida azul me anestesiou por completo. A única sensação é a do sangue se esvaindo enquanto ela começa a me sorver lentamente. Com o pouco que me resta de força, pergunto a ela o porquê. Com toda a delicadeza ela interrompe seu jantar, “acho que você merece uma explicação”, ela diz enquanto senta na cama. “Não é nada pessoal, sabe. Apenas interesse”. Ela acende um cigarro e a luz do isqueiro ilumina sua boca borrada de sangue. Aquela beleza diabólica necessitava daquelas pinceladas rubras para se tornar plena. “Veja por esse lado, eu preciso de sangue regularmente e estou correndo que nem uma louca para terminar o meu TCC”, ela continua num tom absurdamente calmo e cínico enquanto segura o cigarro entre os dedos como só ela sabe fazer. “Estou disputando uma bolsa de pós-graduação na Alemanha que depende de um puta projeto de conclusão. Você sabe o que é isso? Estudar em Berlim? Não, acho que não. Seu sonho é ir pra Amsterdã. Só pra comer aquelas ruivas peitudas chapado de haxixe”. Ela não pergunta. Ela sabe. Ao me beber ela passou a me conhecer como ninguém. Aposto que o seu conceito sobre mim mudou ao absorver o que penso. É por isso que o tom de sua voz não tem nenhum resquício de remorso. “O seu azar foi ter escolhido o expressionismo alemão para o seminário, o movimento ideal para complementar as pesquisas que ando fazendo sobre o inconsciente coletivo. É por isso que eu ficava te pentelhando tanto sobre o assunto. O meu tempo é muito curto para eu absorver tanta coisa lendo e vendo filme. Coisa que você teve de sobra pra fazer”. Sua voz entrava pelo meu ouvido no mesmo ritmo em que o meu sangue vazava. A cama se transformava em um charco de sangue enquanto eu tentava extrair algum tipo de redenção daquelas últimas palavras. “Que pena que você sempre se esquivava do assunto nas nossas conversas. Tava na cara que você achava aquilo um saco e que decorou toda aquela informação só pra fugir da dp. Uma pena. Se aquilo tudo tivesse se transformado em conhecimento, talvez eu transasse com você antes de te morder”. Aquelas palavras, por mais absurdas que fossem, tinham no fundo uma lógica, um tipo de verdade arquetípica. O mundo é agora um borrão vermelho, branco e negro. Antes que ela termine comigo, consigo arrancar um último fio de voz para perguntar se ela pode me dar a vida eterna. Com uma expressão de ironia e supresa ela responde com outra pergunta: “pra quê?”. Então, pela primeira vez na vida eu não tenho uma resposta na ponta da língua para oferecer. Não há mais nada a dizer pois não há mais nada dentro de mim. Mente e coração estão vazios. Ou será que sempre estiveram? A escuridão dissolve as últimas cores e formas. Entregue ao breu, sinto apenas o peso leve do seu corpo magro a se debruçar novamente sobre mim.
Escrito por Fabricio Franco às 19h32
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sobre águas vermelhas - 1
No meio do bosque de grandes árvores verticais há um pequeno regato de águas claras e límpidas que serpenteia por entre os pinheiros. Levando folhas sem quebrar o silêncio ao deslizar sobre as pedras e o corpo alvo coberto pelo vestido vermelho de Alice. No meio do bosque, a vida escorre sem deixar marcas. No meio do bosque de grandes sombras horizontais, há folhas esparramadas pelo chão. Carregadas por um corpo inerte, entregue às mãos de Anísio, que com um pequeno esforço o arrasta atrás de si. No meio do bosque, a vida escorrida deixa um rastro vermelho por onde rastela. Debaixo das águas do regato, a vida começa a sufocar com um sorriso sutil, de quem está prestes a defrontar-se com a morte. Tão precoce, o encontro foi antecipado por quem não suportava mais aguardar o convite. Sobre as águas do regato, Anísio despeja mais uma vida. A quinta do ano. Tão bela e jovem quanto as outras do passado. O corpo da garota sem nome tem a mesma idade de Alice e flutua com a mesma suavidade das folhas. O vermelho do sangue, que ainda jorra pelo corte do pescoço da desconhecida, começa a tingir as águas calmas e não mais límpidas, avançando vagarosamente até mesclar-se, logo adiante, ao rubro vestido submerso. É quando as cores se encontram e se confundem que Anísio descobre Alice. Ao aproximar-se, percebe que ela ainda não está morta e, pela primeira vez, sente instintivamente o estranho desejo de salvar a vida de alguém. Rapidamente, o rosto de Alice é imerso das águas pelas suas mãos. O ar retorna aos pulmões e os olhos voltam a abrir. É o regresso frustrado de uma viagem não realizada. Ao despertar, depara-se com uma cena bizarra: um corpo sem vida passa flutuando ao seu lado, enquanto, na sua frente, um homem com o rosto arranhado e expressão de espanto olha fixamente para sua face. Então ela compreende. E tudo o que pode fazer naquele momento é pedir: - Me deixa morrer ou me mata. Surpreso, Anísio não diz nada. Apenas saca o punhal do bolso e tenta executar o que sempre esteve acostumado a fazer. A diferença é que, desta vez, ele tem dúvidas.
Escrito por Fabricio Franco às 23h03
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